A líquida racionalidade moderna recomenda mantos leves e condena as caixas de aço

Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos e limes, espaciais ou temporais. Ele não têm necessidade ou uso que possam ser justificados pela líquida racionalidade moderna dos consumidores. Vínculos e liames tornam “impuras” as relações humanas – como o fariam com qualquer ato de consumo que presuma a satisfação instantânea e, de modo semelhante, a instantânea obsolescência do objeto consumido. Os advogados de defesa das “relações impuras” teriam de se esforçar para tentar convencer os jurados e obter sua aprovação.

Sigusch acredita que cedo ou tarde “os impulsos e desejos que escapam aos grilhões da racionalidade” retornarão – e trarão vingança. E quando o fizerem não seremos capazes de responder “sem recorrer ao uso de conceitos sobre instintos naturais e valores eternos corrompidos até a raiz, histórica e politicamente”.

Se isso vier a ocorrer, como Sigusch prenuncia ou prevê, vai exigir mais do que apenas uma nova visão do sexo e das expectativas que podem ser legitimamente investidas nos atos sexuais. Exigirá nada menos que libertar o sexo da soberania da racionalidade do consumidor. Talvez exija ainda mais: que essa racionalidade seja destituída de sua atual soberania sobre os motivos e estratégias da política de vida humana – que essa soberania lhe seja cassada. Isso significaria, contudo, exigir mais do que seria razoável esperar num futuro previsível.

“Homo consumens” - O que caracteriza o consumismo não é acumular bens (quem o faz deve também estar preparado para suportar malas pesadas e casas atulhadas), mas usá-los e descarta-los em seguida a fim de abrir espaço para outros bens e usos.

A vida consumista favorece a leveza e a velocidade. E também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam. É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homo consumens.

Por Zygmunt Bauman no livro Amor Líquido

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